quinta-feira, 16 de março de 2017

A vida é um instante

Me fascinam os dias normais,
o acordar mau humorado nosso de cada dia,
a apatia se faz Sol, se está frio.
Banho gelado afinal é verão,
perfumes, bom dias, técnicas teatrais de convívio,
a matrix uma vez descoberta se torna insuportável,
até que um clique, uma senha transforma o dia.
Lá vem ele,
um estranho andando devagar,
sorrindo como se trouxesse mais que uma demanda,
trouxesse uma história,
alguma eternidade compartilhada por alguns minutos.
Boa tarde eu digo,
já me desculpando pela demora,
ele me olha e com o mesmo sorriso
me pergunta se pode deixar a bengala apoiada na outra cadeira.
E antes que eu respondesse,
ele já começa a derrubar o muro invisível,
eu jogava bola há poucos anos atrás,
e hoje sem essa bengala eu caio.
Tenho uma doença degenerativa,
não tem cura,
por isso não precisa me pedir desculpas pela demora,
não tenho pressa, até os minutos em uma fila podem ser valiosos.
Ainda sorrindo pergunta minha idade,
disse a ele que eu era de 86,
bom ano, um lindo ano,
dias que eu tinha pressa,
a juventude sempre tem pressa.
Fiz algumas perguntas sobre o que tinha lhe acontecido,
como aconteceu, quando e um questionário de uma curiosidade absurda,
afinal quem era o senhor fascinado por combinações numéricas,
sonhos e jogos de azar.
Dizia ele que por pouco não acertou os seis números em um jogo de milhões,
disse que errou um número e que só errou porque não soube interpretar um sonho,
me confidenciou suas táticas de jogos,
seus desafios, como subir os degraus do ônibus,
seus tombos, como quando caiu das escadas do cartório,
seus medos, como tomar banho e escorregar no banheiro.
A vida é um instante e uma inevitável estrada para o fim,
eu aprendi isso quando me faltou forças para abraçar meus filhos,
filhos que carreguei em meus braços por tantos anos,
aprendi isso quando chorei quieto antes de dormir
pensando que não poderei mais andar de bicicleta com meu neto.
Eu olho para o meu braço e nada mudou,
olho para minha perna e ela continua lá,
mas minha cabeça insiste em dizer que não estão, consome toda força que eu tinha
e o que me resta meu jovem é me medicar pra retardar esse processo.
Eu chamei um senha sem nenhuma pretensão,
monotonia diária, perguntas e buscas, sim e não,
volte amanhã, traga cópias,
palavras cinzentas,
mas a vida é um instante,
e talvez por isso me fascina tanto esses dias normais,
dias em que nenhum otimismo pode mudar o final da história,
dias reais,
dias em que alguém se dispõe a te entregar um mundo inteiro em apenas um instante.
Com o mesmo sorriso no rosto se levanta lentamente assim como se sentou,
pega sua bengala e me agradece pelo atendimento,
desculpe tomar seu tempo e de tudo que conversamos só não esqueça
das táticas pra conseguir acertar aqueles seis números,
afinal a vida é um instante e não as baboseiras ditas por um velho.

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