quinta-feira, 23 de março de 2017

Ela (parte 2)

Vamos tomar um café?
Te espero hoje às 17:00 no mesmo lugar de antigamente.
Nada mais, só isso, nenhuma eternidade implícita?
Sério?
É cafonice, mas nenhum eu te amo?
O que esperar desse allstar branco, jeans rasgado e tatuagem no braço,
desse sorriso de quem sabe tudo,
todas as respostas,
todas as perguntas,
e as imperfeições de todo um mundo em uma pessoa só.
Vamos viajar o mundo?
Largar tudo, emprego, planos,
aposentadoria, essas pessoas que só pensam em si,
tirar foto das estátuas historicamente tombadas
fazendo poses sensuais,
fazer amizades com árabes, indianos e afins.
Visitar todas as praias,
conhecer nosso país,
falar com sotaque diferente,
imitar os ricos sentados na mesa ao lado,
conversar sobre nossos fracassos
amorosos, profissionais e colocar tudo em um saco.
Vamos deitar quietos?
Ver filmes chatos, séries sem sentido,
comer pipoca, ficar cobertos como se todo dia fosse sábado...
Sem sua opinião sobre meus gostos,
afinal, ei só você não gosta de "os gonnies",
e nem venha com esse discurso que você não é todo mundo,
e nem venha com esses beijos em meu pescoço,
é sério, ficaríamos quietos, lembra?
Eu amo tanto esse seu beijo,
nervoso, forte, indecente,
essa sua mania de não se preocupar com os vizinhos,
de falar putaria enquanto morde minha orelha,
de odiar script, de me olhar enquanto puxo seus cabelos,
sem nem lembrar o nome de filme, se tem filme, a tv está ligada?
Vamos mudar o mundo?
Dedicar nosso tempo aos outros,
alimentar indiretamente nosso ego,
falar sobre o amor que vence a guerra,
sentar com os mendigos,
cortar seus cabelos, ouvir suas histórias,
ajuda-los a procurar empregos,
ei vamos viver disso,
de ajudar ao próximo,
de ser uma luz na escuridão,
de ser realização e não promessa,
vamos xingar o governo e fazer nós mesmo?
Ser cordial com quem nos fere a gentileza,
mandar se fuder quem nos fecha no trânsito,
ok... Desculpe... Estamos no momento sobre amor ao próximo.
Mas de todas as opções você me convida pra tomar um café
no lugar de antigamente,
você gasta todo batom,
chama minha atenção,
me dá um beijo de bom dia,
deixa no ar seu perfume de baunilha,
e escreve um bilhete lido e relido mil vezes,
tentando encontrar algum " hoje não dá",
"hoje não posso", "hoje tenho curso de make".
Apenas um bilhete,
me encarando, me desafiando,
me convidando a acreditar
que você vai estar lá,
com seu batom de morango,
seu allstar branco, jeans rasgado
e vontade de me beijar.
Eu saio mais cedo do trabalho,
com a blusa que você mais gosta,
o perfume de dez anos,
coloco bem alto uma das músicas velhas dos meus trinta e poucos anos,
à saber uma das que você mais odeia,
desculpe, me lembra você.
Peço um café preto, odeio café com leite,
defeito de carioca você sempre diz,
faltam cinco minutos para seu atraso,
passam dez minutos do seu atraso,
passam trinta minutos do seu atraso,
passam algumas mensagens do seu atraso.
Continua...

quinta-feira, 16 de março de 2017

A vida é um instante

Me fascinam os dias normais,
o acordar mau humorado nosso de cada dia,
a apatia se faz Sol, se está frio.
Banho gelado afinal é verão,
perfumes, bom dias, técnicas teatrais de convívio,
a matrix uma vez descoberta se torna insuportável,
até que um clique, uma senha transforma o dia.
Lá vem ele,
um estranho andando devagar,
sorrindo como se trouxesse mais que uma demanda,
trouxesse uma história,
alguma eternidade compartilhada por alguns minutos.
Boa tarde eu digo,
já me desculpando pela demora,
ele me olha e com o mesmo sorriso
me pergunta se pode deixar a bengala apoiada na outra cadeira.
E antes que eu respondesse,
ele já começa a derrubar o muro invisível,
eu jogava bola há poucos anos atrás,
e hoje sem essa bengala eu caio.
Tenho uma doença degenerativa,
não tem cura,
por isso não precisa me pedir desculpas pela demora,
não tenho pressa, até os minutos em uma fila podem ser valiosos.
Ainda sorrindo pergunta minha idade,
disse a ele que eu era de 86,
bom ano, um lindo ano,
dias que eu tinha pressa,
a juventude sempre tem pressa.
Fiz algumas perguntas sobre o que tinha lhe acontecido,
como aconteceu, quando e um questionário de uma curiosidade absurda,
afinal quem era o senhor fascinado por combinações numéricas,
sonhos e jogos de azar.
Dizia ele que por pouco não acertou os seis números em um jogo de milhões,
disse que errou um número e que só errou porque não soube interpretar um sonho,
me confidenciou suas táticas de jogos,
seus desafios, como subir os degraus do ônibus,
seus tombos, como quando caiu das escadas do cartório,
seus medos, como tomar banho e escorregar no banheiro.
A vida é um instante e uma inevitável estrada para o fim,
eu aprendi isso quando me faltou forças para abraçar meus filhos,
filhos que carreguei em meus braços por tantos anos,
aprendi isso quando chorei quieto antes de dormir
pensando que não poderei mais andar de bicicleta com meu neto.
Eu olho para o meu braço e nada mudou,
olho para minha perna e ela continua lá,
mas minha cabeça insiste em dizer que não estão, consome toda força que eu tinha
e o que me resta meu jovem é me medicar pra retardar esse processo.
Eu chamei um senha sem nenhuma pretensão,
monotonia diária, perguntas e buscas, sim e não,
volte amanhã, traga cópias,
palavras cinzentas,
mas a vida é um instante,
e talvez por isso me fascina tanto esses dias normais,
dias em que nenhum otimismo pode mudar o final da história,
dias reais,
dias em que alguém se dispõe a te entregar um mundo inteiro em apenas um instante.
Com o mesmo sorriso no rosto se levanta lentamente assim como se sentou,
pega sua bengala e me agradece pelo atendimento,
desculpe tomar seu tempo e de tudo que conversamos só não esqueça
das táticas pra conseguir acertar aqueles seis números,
afinal a vida é um instante e não as baboseiras ditas por um velho.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Ela

Conheço esse olhar,
longe e distraído
procurando abrigo.
Eu já te pedi pra ficar,
segurei suas mãos,
aqueci a cama em dias de temporal
esperando você vir.
Por amar seu silêncio
e o cheiro de baunilha dos seus cabelos,
eu abri mão da eternidade por inteiro
só pra te ter aqui.

Fique comigo hoje,
amanhã não precisa se despedir,
a vida é um instante
e eu quero gastar o meu aqui.

Conheço esse bilhete na mesa,
a marca de batom,
a xícara pela metade de café preto,
e esse sorriso em sua boca
enquanto me olha fingindo dormir,
sorriso apressado de quem se vai
com medo de ouvir minha voz pedir pra você não ir.
Sempre fica um brinco perdido,
um prendedor de cabelo,
um batom de morango,
um destino otimista brincando de ser feliz.
Você deita em meu peito
como se fosse lar,
nada mais que fuga,
eu sei já aprendi.
Você começa a escrever um bilhete,
o beija até gastar o batom,
toma todo café,
e me beija antes de partir,
e só o faz por saber que a muito tempo já não leio seus bilhetes,
que se amontam com meus livros a ler.
Continua...