sábado, 19 de setembro de 2015

Beijos

Me beije pela última vez,
estamos morrendo aqui,
e a cada dia que passa
é um pra sempre que se acaba.
Todos os meus antigos amigos
estão sentados ao lado do doutor
esperando que ele diga que minha loucura
é o que me faz te querer.
Me beije devagar,
a vida passa sem perdoar as chances que se vão
e ninguém consegue superar a colisão de oportunidades que perdemos esperando o amanhã chegar.
Me beije sorrindo,
como no final de um filme
onde a sequência consegue ser melhor que o filme original,
é impossível eu sei,
mas somos feitos do inacreditável,
de amores absurdos,
conversas superficiais
e vontades disfarçadas.
Me beije enquanto morde minha boca,
eu vou dizer no seu ouvido
que seu beijo tem gosto de mar
e que o suor do seu corpo no meu
é o mais próximo do paraíso
que um mortal pode experimentar.
Me beije do seu jeito,
gostoso, forte e indecente.
Me beije como alguém que está perdido,
encontra seu caminho,
mas prefere se perder.
Me beije de uma vez,
sem pensar no depois,
me beije todas as manhãs,
me beije com o calor que seca oceanos,
me beije como a chuva de um dilúvio,
pois só quando você me beija
eu consigo ver o tempo parar,
o mundo sumir,
e nós dois sermos o que nascemos pra ser,
um beijo eterno na lembrança.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Dias que se passam

Em algum momento estarei errado,
não sei o tempo que falta para o relógio da vida começar a repetir a história,
de alguma forma eu vejo que sempre vai ser assim.
Meus velhos amigos estão vivendo um sonho e eu aqui,
eles estão sobrevivendo a um acidente de avião
e eu nunca consegui voar.
Eu lembro da tequila,
não conte a ninguém eu não lembro muito bem,
eu lembro do seu abraço,
desconfiado eu sei, meu querido pai,
sem pensar que sentiria saudade, eu sei,
eu lembro das suas lágrimas minha querida tia,
com saudade, eu sei.
Eu já disse adeus a esse lugar,
afinal estar onde o coração não está
é a maior prisão que alguém pode estar.
Lá se foram os dias no porão,
as belas canções,
os purês de batata e o banheiro que nunca gostei de limpar,
lá se foram nossas histórias não escritas e bem vividas.
Eu admiro os meus erros,
me trouxeram um grande amor,
um filho bulldog,
grandes amigos
e uma família que não cabe na fotografia.
É estranho chegar em algum lugar,
seja ele qual for,
não existe referência,
não existe descendência,
mas existe alguém disposto a dizer que pra chegar em algum lugar
é só seguir reto toda vida.
A salvação vem pela coragem de acreditar no ridículo,
de ser tolo o suficiente de dizer sim quando todos diriam não,
de dizer não quando todos diriam sim,
e começar do zero é a salvação para aqueles que enxergam o topo como um degrau, não como o fim.
Lembro dos últimos momentos,
do olhar que se perde enquanto o ônibus se vai,
da carona que leva o que resta de um relacionamento que se acaba,
da risada que se dá quando a história parece se repetir,
das festa que começam,
sim...
Eu não lembro como terminam.
Eu me sinto tão vivo,
eu lembro de tudo que deixei pra trás,
de tudo que já vivi,
a fome que já passei,
a mãe doente que já cuidei,
a mãe doente que já perdi,
os amigos que já desfiz,
o frio que já senti,
o calor que já gerei,
a vida bem vivida que só quem arrisca tudo em uma só jogada pode dizer que já viveu.
E sim o mundo vai ruir,
tudo vai desabar,
mas o Deus que não existe,
Ele vai estar lá segurando minha soberba mão,
me dizendo o que fazer,
ou em silêncio me abraçando
quando eu menos merecer.
Enfim sobre os dias que passam
me resta apenas dizer que de mil arrependimentos
existem alguns que valem mais que mil acertos,
pois se até quem sabe erra,
imagina eu que nada sei,
imagina eu que sou feliz por poder errar,
e em meio a erros conseguir acertar.