quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Despertador

A fidelidade do despertador me espanta,
a sua facilidade em me despertar dos meus sonhos,
seu jeito de cantar sempre a mesma música no mesmo horário,
acho que por isso somos tão diferentes.
Nunca tive aptidão pra ser o mesmo,
sou mais folha do que árvore,
mais vento do que mar,
sou tão passageiro que logo não saberei informar
o local que outrora fora meu endereço.
Não me entenda mal,
eu invejo as raízes,
conhecer o carteiro,
ver o Sol nascer da mesma janela por uma vida inteira,
mas não sou feito de lugares,
sou feito de pessoas,
carrego em meus melhores momentos conversas sem sentido,
tenho em porta retratos não as mais belas paisagens,
mas os melhores sorrisos.
Eu já vi o pior dia de chuva se transformar em um belo dia de Sol,
já vi um rio calmo se transformar em um gigante destruidor,
já vi tempestade de raios, chuva de estrelas,
mas nada se compara ao sorriso forçado de uma segunda-feira de mau-humor,
pois lugares existem, coisas acontecem,
simplesmente faz Sol, simplesmente chove,
mas um sorriso em uma segunda de manhã,
nasce nos lábios daqueles que se importam.
Do que é feito o arrependimento?
Eu sempre me pergunto isto quando me despeço,
eu revejo os dias rabiscados no calendário,
os elogios inesperados, as piadas contadas,
as atitudes incompreendidas, a falta de atitude,
revejo os momentos engraçados, as palavras de incentivo,
as perguntas, as muitas perguntas respondidas,
e eu sou parte disso.
Então toda vez que me pergunto do que é feito o arrependimento,
eu me lembro do despertador
e agradeço por cantar a mesma música no mesmo horário,
por ser fiel, por me despertar dos meus sonhos todos os dias,
pois o arrependimento é feito dos dias em que os objetivos,
os lugares e as coisas,
se tornam mais importantes do que as pessoas,
e isso o meu despertador nunca deixa acontecer.

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