sábado, 26 de novembro de 2011

Eu sempre tive um Pai


Eu tinha apenas sete anos,
sei lá o que eu sabia sobre o mundo,
sobre como tudo funcionava,
o que era ser só. Ter um vício.
Ser um pai.
Tanto tempo sem aparecer,
sem um telefonema,
sem um presente de natal,
sem ao menos um eu te amo dito da boca pra fora.
Mas lá estava ele,
sete anos depois de ter deixado uma família pra trás,
estava sentado no chão,
sem ter o domínio de si,
sem forças pra se levantar,
sem a sobriedade necessária para se expressar.
Quem iria culpar uma criança que tem vergonha do próprio pai?
Eu tinha apenas dezoito anos,
pensava que acreditar nas pessoas era ser sincero,
comigo e com o mundo inteiro,
pensava que já tinha o domínio de algumas lições,
que uma segunda chance se faz necessária,
quando o perdão é a única ponte que nos traz paz,
traz a certeza, traz um pai.
Mas eu pensava em coisas demais,
fui roubado como alguém que entrega a senha, o tesouro,
e de si todo o mais.
Quem iria culpar a mesma criança que tem vergonha do próprio pai?
Eu tinha uma vida inteira pela frente,
errava como um qualquer,
acertava como qualquer um,
tinha sonhos, tinha planos,
magoei milhares, fiz sorrir poucos milhões,
tinha lá meus dez dons, e mais de mil pedras nas mãos,
tinha os conceitos, era um preconceitoso e egoísta,
e mesmo assim era amado,
um amor que se apega as coisas simples,
que valoriza cada detalhe,
que ouvia minhas lágrimas quando a voz faltava.
Quem poderia culpar essa criança de ter vergonha de si mesma?
Eu tenho apenas vinte e cinco anos,
conto nos dedos da mão, os amigos,
incontáveis feridas,
importantes desafios,
e um abrigo,
apenas um pai,
o que sempre esteve comigo.

Um comentário:

ELENA BARROS disse...

O mais importante de todos; o único capaz de nos trazer refrigério e consolos reais, em qualquer momento da vida...Que bom que você percebeu isso!!!

Beijos!!!