sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

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Pai, talvez essa carta demore pra chegar,
talvez chegue depois das datas importantes de fim do ano,
acho que as palavras não entendem o significado de urgência,
porém tudo aqui escrito diz respeito ao meu desespero e saudade,
algumas lembranças e muita dor.
Como faz tempo que não lhe falo, que não lhe escrevo,
queria dizer que voltei aos meu vícios,
estou sendo soberbo novamente,
estou me sentindo superior a todo mundo,
uma recaída tão forte, que só consigo pensar em mim.
Estou perdido, não sei como recomeçar,
não sei o que fazer, mas finjo estar tudo bem,
eu lembro de tudo que vivemos e me dói tanto,
joguei todos os meus dons fora,
pior que um filho pródigo que sente vontade de comer comida de porcos,
eu tenho habitado no lixo,
lixo de conceitos tão meus que parecem ter sentido,
mas não tem.
Faz tanto tempo que não digo a verdade...
Espera só um instante senão as lágrimas vão manchar o papel...
Pai...
Eu estou morto.
Não tenho sonhos reais...
Nem planos concretos...
Não tenho mais você por perto.
Pai, todos me dão conselhos, todos me dizem o que fazer,
mas eu não dou ouvidos,
tenho vivido pela minhas regras,
eu me lembro do violão quebrado,
dentro daquele quarto soando notas desafinadas,
era tão simples,
era apenas eu e você e tudo que eu queria te dizer.
Eu lembro de pessoas indo ao seu encontro,
de todas as horas dedicadas a você,
do coração agradecido,
mas nada disso restou.
Pai, eu não me suporto mais,
não agüento mais o mesmo teto,
a mesma vida, o mesmo jeito,
vivo sem nenhum fundamento,
sem nenhuma razão,
com o passar do tempo adquiri o dom de me decepcionar comigo mesmo,
e te escrevo hoje com a saudade de quem não vai viver muito tempo.
Pai, queria te ter por perto novamente,
queria não precisar escrever,
queria poder te dizer pessoalmente,
a falta que você tem me feito,
você me criou pra viver ao teu lado,
e hoje perto das festas em que tudo se torna bonito e falso,
eu não tenho palavras bonitas pra dizer,
nem grandes feitos pra te orgulhar,
só um pedido,
preciso de ajuda, a sua ajuda,
porque estou morto,
e só você pode me ajudar.

De seu filho.

Um comentário:

Kiro Menezes disse...

Arrepiei-me... Não há o que comentar da beleza de teu apelo!

"Seja tua alma liberta,
de teus preceitos, reste poesia
de tua palavra, as virgulas
e tua escrita, seja sentida!"

Amei amei amei... Foi belíssimo cada segundo lido!!!