sábado, 4 de setembro de 2010

O velho bêbado que vende flores de plástico


Lá vem ele cambaleando,
falando sozinho ou com suas lembranças,
ele segura flores de plástico em suas mãos,
me aborda dizendo:
"uma flor, um real, uma flor, uma noite especial"
Minha vontade me trai e começo a rir,
ele é só um bêbado que vende flores de plástico,
que deve ter perdido amores,
que deve ter ficado só,
e encontrou nas flores um caminho pra reencontrar o que é especial.
Ele senta do meu lado,
não parece ter ficado chateado,
mas me pergunta a razão da minha risada,
eu digo que flores não fazem uma noite se tornar especial,
então ele me olha, se levanta, me bate nos ombros,
e diz: então você precisa beber mais do que eu.
Já é tarde da noite e eu esperando o ônibus no terminal,
e se não bastasse fico sem entender,
entender o que são sentimentos,
o que é um momento especial,
tudo graças a um bêbado que vende flores de plástico,
e agora acende um cigarro.
Quantas vezes o mundo não fez sentido pra você?
Quantas vezes os olhares que deveriam passar, permaneceram?
Quantas vezes as frases ensaiadas deram lugar a falta do que falar?
Eu finjo prestar mais atenção por não saber responder.
Os sentimentos fazem flores sem vida, viver,
é um recado escrito no espelho do banheiro e um beijo de bom dia,
que faz de um dia simples, um dia especial,
é ligar pra dizer: não paro de pensar em você,
que traz Sol as manhãs cinzas de um inverno.
Ele enfim se cala enquanto fuma seu cigarro.
E eu começo a falar comigo mesmo,
que as palavras são de um velho bêbado,
mas me trazem a verdade das coisas que fingimos não ter medo,
medo de não encontrar alguém que dê vida as flores de plástico,
medo de não ter ninguém pra compartilhar o último pôr-do-Sol do verão,
medo de não encontrar um amor que acelere o coração.
Encontre em você as palavras certas e me responda:
São mais importantes as flores ou o sentimento?
São mais belos os castelos ou o estar perto?
São mais agradáveis os mais raros perfumes ou o calor do acalento?
O sentimento, o estar perto, o calor do acalento,
respondo como se não houvessem outras opções,
ele joga o cigarro fora,
coloca uma flor em minhas mãos e diz:
então não ria de um velho bêbado que vende flores de plástico,
ria por ter feito valer a pena o sentimento que dá vida as flores.

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