quarta-feira, 23 de junho de 2010

A dádiva das coisas simples


Se eu pudesse escolher um dom,
eu escolheria o dom de viver as coisas simples,
de reviver o tempo em que amar era suficiente,
e que as pessoas eram felizes,
felizes ao ver que o tempo pára quando se encontra quem se ama,
que os poetas dizem coisas que esperam viver,
que sentem coisas que talvez nunca vão sentir.
Eu escolheria o Sol refletido nos seus olhos,
escolheria viver as frases espontâneas que não fazem sentido,
as frases que se transformam em monólogos,
e que não dizem nada e ao mesmo tempo se resumem em repetir,
as palavras que o mundo a tanto tempo banalizou,
um "eu te amo" empoeirado escrito num jornal.
Nós sabemos tanto e ainda buscamos a paz com balas de canhão,
crescemos tanto, e nossa mente decrescente se faz do tamanho de um grão,
um grão de pó,
um grão de ser humano que no meio da multidão continua se sentido só.
A distância nunca existiu,
me convenço disso quando vejo a Lua aquecida pelo Sol,
quando nada se torna impossível para os que tentam,
quando é insuportável a dor dos que desistem.
Tudo muda se mudarmos,
nunca foi o jeito que as coisas são,
mas o jeito como vemos,
e o que vemos não define ser ou não,
o mundo há tempos só consegue ver o que as pessoas foram,
o que agora são,
mas a virtude consiste em ver o que podemos ser.
E nós podemos ser a oração de um cego que suplica para enxergar,
podemos ser o suor de um nordestino que com esperança planta,
esperando que a chuva possa chegar,
podemos ser o pior agarrados a um filete de coragem que um dia possamos melhorar.
O mundo não é triste, o caos não é nosso lar,
falamos sem saber, pensamos sem agir,
temos de mil dons, a natureza comum de complicar,
por isso que dos alvos que tenho,
do viver um amanhã que não existe,
das preces e da pressa,
a única dádiva que peço,
é de fazer valer a pena os momentos que não se repetem,
é de viver sem complicar as coisas simples.
Simples como dizer o que sente,
simples como ser quem se é,
simples como ter a certeza de que amar ainda é suficiente.

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