sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Os heróis com capa de saco de lixo

Quem perguntou seu nome ao chegar?
Cheiro de lixo paira no ar,
convivemos com circunstâncias tortas,
e nada que é feito muda o fato,
das crianças que brincam de super heróis,
segurando sacos plásticos.

Feche o vidro do seu carro importado,
o amor a si mesmo bloqueia a visão,
de quem está ao lado,
e por falar em lado parecemos estar,
do lado errado,
e no mundo real onde o sangue não é tinta de papel,
ignoramos as crianças com tarja nos olhos,
que aparecem nos retratos.

Comece a procurar suas roupas rasgadas,
as coisas que você muito gostaria de se livrar,
elas servem como ouro para o entulho da humanidade,
e ao som das canções que falam sobre oportunidades,
nos falta um dicionário pra entender o significado,
do que é ser bem alimentado, bem cuidado, bem tratado,
mas o que nos resta são apenas alguns trocados,
e após vender todas as balas no ônibus,
apenas dizer muito obrigado.

Deite em seu travesseiro,
não há beijo na testa,
pra quem quase morre congelado,
é o mundo real que você não faz parte,
sua luta diária é pensar como gastar o décimo terceiro,
e a nossa é ficar atento ao lixo pra ver se nos resta migalhas,
ou ao menos um olhar sem menosprezo,
afinal qual é meu nome?
E quem é humano o bastante para se importar?
Poderíamos ser os heróis com sua capa de saco plásticos,
mas seríamos sempre os vilões que roubam carteiras nos sinais.
E quem humano pra desenhar um Sol nos dias que só chove sobre nós?
Poderíamos ser o futuro da nação que luta por um futuro melhor,
mas seríamos sempre a escória de uma nação que se perde no passado.

Então antes que você me diga não,
quando eu pedir pra engraxar seu sapato,
só te peço que faça o relógio ir mais rápido,
pra que eu sinta fome por menos tempo,
e fique menos com o cheiro de rato que roem meus cabelos,
porque posso parecer um herói com uma capa feita de saco de lixo,
que pouco te importa se come ou deixa de comer,
que parece mesmo um bicho, vira-lata e jogado na calçada,
mas aqui dentro desses olhos fundos que brilham,
só apenas uma criança que precisa de abrigo.

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