quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Rosto Triste

Já são meia-noite,
o silêncio reina nesse lugar,
não há correria de crianças,
nem confusões de gente grande,
nada que possa incomodar.
Apenas uma tosse,
que vara a madrugada,
uma tosse seca, parece até amargurada,
uma tosse de quem já sente a vontade de parar de respirar.
Eu pouco o vejo,
seus olhos tristes sempre miram o chão,
me responde um boa tarde,
apenas com o gesto de sua mão.
De manhã bem cedo, às vezes,
dá pra ouvir os pés arrastando no chão,
sua idade avançada faz de seu caminhar uma lentidão,
ele parece ter dificuldade para falar,
ou apenas se rendeu a situação.
Em sua casa sua esposa dorme com outro,
em sua casa tem menos valor que um cachorro,
um cachorro que vive a margem,
que não tem coragem,
que o corpo debilitado pela doença,
acaba por tirar da obra de arte de Deus,
todos os detalhes.
Um rosto triste,
sem vontade de viver,
mas quem pode culpa-lo?
Quem pode dizer se isso é certo ou errado?
Temos muitas respostas,
algumas delas fazem tanto sentido,
que se você falar pra ele, quem sabe ele até bata palmas.
Mas o rosto triste, o olhar que mira o chão,
vai te falar tudo sem precisar dizer nada,
vai te falar dos filhos que o abandonaram,
dos amigos que o deixaram,
da doença que parece não ter cura,
da esposa que olhando pra ele chama outro de amor.
Se me perguntarem o nome dele,
não vou saber responder,
como disse ele pouco sai do quarto,
e praticamente não tem nada a dizer,
mas sua tosse seca durante a madrugada inteira,
me lembra do homem do rosto triste,
que encontrou todas as razões pra não querer mais viver.

2 comentários:

Ana disse...

Que lindo, qt sensibilidade..
=)

Gal Braga disse...

Que lindo!!!