segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O menino que faz voar

E lá vem ele,
com sua mão encolhida, arrastando o pé,
com a fala enrolada, chega se enconstando em mim.
Eu estava naqueles dias quietos,
sem muito o que falar,
dias que tentamos evitar,
com o coração sentado, sem querer conversar,
com a mente borbulhando, sem saber que decisão tomar.
E lá vem ele,
é só uma criança que gosta de brincar,
só mais uma entre as crianças que tenho que pedir pra não correr,
mas hoje provavelmente sem querer,
ele me fez voar,
me fez levar a vida devagar.
"Deus cuida de mim",
de todas as canções que ele cantou,
essa frase chegou onde nenhuma outra poderia chegar,
ele veio pra puxar assunto,
e eu queria ficar só,
mas são nos dias em que nada podemos oferecer,
que podemos ter as mãos livres para receber.
Ele subitamente me disse que sabia cantar um hino,
e eu me dispus a escutar,
quando não se tem nada a perder,
fica mais fácil jogar pra ganhar,
sua doença de nascença o impossibilitara de falar,
o que eu podia entender eram apenas fragmentos das palavras,
somado ao esforço que ele fazia pra respirar,
mas entre os pedaços do que eu ouvia,
o sussurro de Deus veio por completo,
invadindo assim meu coração dormente.
Uma cena imaginária se não fosse tão real,
o cantor sem canções,
ouvindo uma criança sem voz pra cantar,
ele me ensinava, me dizia pra eu acompanhar,
de repente com a mão torta e mirrada,
de uma criança que teve paralisia parcial,
ele toca no meu peito e me diz:
essa canção vai tocar seu coração.
E tocou...
Tocou quando me fez lembrar o cuidado que Deus tem por mim,
tocou quando me lembrou quem eu sou,
pra que sou e o que fazer,
tocou quando de um recipiente que julgava ser vazio,
saiu o sussurro de Deus, saiu o toque majestoso,
saiu o jeito simples que Deus tem de nos falar o que precisamos,
quando não queremos ouvir.
Eu, apenas o observador,
deixando o menino cantar,
o mesmo menino que gosta de correr,
o menino com a fala enrolada,
com a mão mirrada e com o pé que arrasta no chão,
o menino que Deus escolheu para confortar meu coração,
que pode não ser um grande corredor quando crescer,
mas tem a habilidade de fazer voar.

Um comentário:

Ana disse...

Eu amei essa! Linda, linda, linda!